Sunday, March 18, 2007

ONDE ESTÁ A VERDADEIRA FELICIDADE?

Numa recente deslocação que fiz ao Porto, por motivos profissionais, a conversa que mantinha com dois colegas no carro resvalou, inevitavelmente, para a economia. Falámos da prosperidade da China e da Índia, do abrandamento dos EUA, do ressentir imediato da Europa, e como não podia deixar de ser falámos de África. Tão inevitável, como alguém acabar o assunto, dizendo “África, que miséria!”. As explicações que se seguem a esta frase, são normalmente as mesmas: Continente rico, em que uma minoria explora uma maioria que vive numa pobreza extrema, sem acesso às condições que nós no “mundo civilizado ocidental” dispomos e consideramos essenciais à nossa existência. Perguntaram a minha opinião, esperando que anuísse, pois sabiam que tinha vivido dois meses na bela Ilha de São Tomé e Príncipe. Fiz-lhes ver que caso se referissem a miséria material, de facto, África e nomeadamente São Tomé, eram de uma pobreza franciscana. Contudo, caso se referissem a algo que o dinheiro não compra, como a felicidade, a alegria de viver e o sorriso permanente estampado no rosto das pessoas, então, a população de São Tomé era tudo menos miserável. Na sequência do que disse, um dos meus colegas lá concordou comigo e até narrou um pequeno episódio. Ele tinha vivido três anos em Inglaterra. Como tinha casa no Brasil, pelo Verão, apanhava o voo para Portugal, onde fazia escala e juntava a família, rumando depois ao Continente sul-americano. Numa dessas ocasiões, enquanto apanhava o comboio para o aeroporto de Gattwick, em Londres, observou com mais atenção o que o rodeava. Pessoas de fato, muitas delas com gabardina e mala de executivo, mas cujo o traço dominante era a expressão circunspecta e sisuda. Depois quando aterrou no Brasil, apanhou um táxi e foi também examinando o que se passava à sua volta. Verificou que as pessoas vestiam-se de modo mais leve, os miúdos brincavam na rua, as senhoras dançavam ao som do samba. Depois contou que deu consigo a pensar no contraste que tinha assistido no curto espaço de umas horas: a frieza do espirito british, tinha dado lugar ao calor humano tão característico do povo brasileiro. E tirou conclusão que muitos afirmam, mas poucos realmente acreditam: o dinheiro não traz felicidade. Este pequeno episódio ilustra bem aquilo parece um contra-senso. Pela ordem racional dos números, e considerando alguns indicadores económicos, o cidadão inglês seria um homem que viveria melhor, logo com maior alegria. O brasileiro, por seu turno, devido aos mesmos rácios, seria alguém sem o acesso a todas as condições que o inglês teria, e por isso mesmo, seria alguém mais amargurado. Só que a lógica da vida encarregue-se de contrariar a aritmética dos dados estatísticos. Na verdade, a diferença de comportamentos entre uma população brasileira ou africana, e uma população inglesa ou mesmo portuguesa é abissal! Atentemos para o nosso dia-a-dia, ou se quisermos, para o dia-a-dia dum típico cidadão trabalhador europeu. Acorda, vai para o trabalho, almoça com colegas (porque o tempo não sobeja para que possa ter uma refeição tranquila com quem mais gosta), volta ao trabalho, sai do trabalho, encara longas filas de espera (enquanto resolve, via telemóvel, os assuntos que ficaram por resolver durante o resto do dia), finalmente chega ao ginásio (o mundo do trabalho exige uma preocupação redobrada com a estética), e daí sai rumo a casa onde já esgotado e sem vontade de falar faz figura de corpo presente à mesa. Depois para os mais resistentes, ainda há tempo para ver um pouco de televisão, embora a maioria se levante repentinamente, quando se apercebe que adormeceu em frente do ecrã. Será que isto é qualidade de vida, ou no limite, será que isto é sinónimo de vida plenamente realizada e permanentemente feliz? Duvido muito. No fim-de-semana, como forma de vingar o sacrilégio da rotina semanal, o cidadão típico enfia-se num centro comercial, onde consome inveteradamente, come num restaurante caro, ou então simplesmente fica a recuperar da semana dura e árdua, retemperando forças para nova semana fatigante que se avizinha.
O estilo de vida dum cidadão em São Tomé é substancialmente diferente. As pessoas acordam cedo, aproveitando um nascer do sol que não existe em mais parte alguma. Aliás, às seis e meia da manhã, mesmo quem queira dormir, não consegue, tamanha é a azáfama que já se sente na rua. Depois uns vão para o mercado vender o que produzem, outros encostam-se à porta da igreja, outros ainda, vão ver como estão as suas plantações e por fim, uns quantos entretêm-se em ir à cidade resolver os seus assuntos. Há sempre tempo para falar, para cumprimentar, para ouvir o outro. Como o meio é pequeno, todos se conhecem, e o convívio nos transportes públicos é uma realidade perfeitamente normal. Depois quando chega a tarde, as pessoas dormem, jogam as cartas, vão à missa, enfim, desanuviam.
As pessoas interrogam-se como é que com um tipo de vida tão simples e ao mesmo tempo tão despreocupado, as pessoas arranjam dinheiro para comer! São Tomé é um caso especial, porque tem a sorte de ninguém morrer à fome, tão vasta é a fonte de recursos naturais disponível. A fruta brota das árvores, a terra fértil dá legumes, o mar garante o peixe. Depois é esperar que cada Homem faça aquilo que mais gosta, entre plantar arvores, trabalhar a terra, ou simplesmente pescar. Com cada pessoa produzindo aquilo que sabe e mais gosta, é possível através da astúcia do povo, perceber que o ganho está na troca de alimentos. Assim, não só se poupa trabalho, como se aumentam os laços de dependência e solidariedade entre as pessoas. A concorrência diminui, mas o tempo abunda para tudo o que não seja trabalhar. O lema de vida é simples. Qual a razão de ter muito, se apenas preciso de alimentação para sobreviver?
Fazer pouco, o essencial, dispensando o resto do tempo para gozar a vida! Para estar com os outros, para dançar, para jogar cartas, para levar uma vida que não seja apenas escrava do trabalho! A vida destas pessoas, que não sabem ler nem escrever, que não conhecem portáteis, que vêem o telemóvel como um luxo, ou que não suspeitam sequer da existência dum GPS é incrivelmente rudimentar, mas ao mesmo tempo absolutamente feliz.
No nosso caso, as relações entre as pessoas estão a desaparecer. As pessoas tornaram-se reféns das empresas, porque as empresas se tornam escravas do mercado, que por sua vez se tornou refém da globalização. A sociedade tenta a pessoa, que não é capaz de dizer não ao consumismo. As novidades sucedem-se e o desejo de ter mais parece insaciável. A sociedade não se contenta com o que tem, porque quer sempre ter mais. No século XIV, os Reis morriam de peste, hoje em dia, já nem o mais pobre dos mortais morre duma doença destas, mas mesmo assim o Homem não é mais feliz. As doenças dos povos ricos invadem-nos: o stress, provocado pela ambição de subir na carreira, não só pelo status como também para poder ir a um melhor restaurante ou comprar mais bens; o cancro provocado pelo exagerar dos pequenos prazeres da vida; a sida (embora seja uma doença que invada também os países ditos pobres) , motivada pelo sociedade que não se respeita, mas sim que instrumentaliza a pessoa humana.
Enfim, uma série de doenças que é provocado pelo nosso desejo ardente de ter mais, sem respeitar as nossas próprias fronteiras, e muito menos a do outro. Sim, porque a solidariedade, dá lugar ao confronto directo com o próximo, nem que para isso, tenhamos que esmagar o do lado e a nós mesmos. Tudo, simplesmente para ter mais. E no final, alguém pára para pensar, se realmente somos felizes? Vale a pena em vez de desfrutarmos do convívio do próximo ou do dom da mãe-natureza, continuarmos neste ciclo louco e inacabável, que nos consome por fora, mas que não nos preenche totalmente por dentro?
Não quero que pensem que sou a favor do laxismo, ou então que sou como Saramago, contra o progresso tecnológico. Penso apenas que não devemos ficar escravos do progresso tecnológico e desta febre consumista que a sociedade nos impõe.
Devemos ser apenas seus aliados naquilo que efectivamente contribui para nos melhorar o nível de vida. Porque o mal da espiral do consumismo, e dos tornarmos reféns de bens materiais, é que estamos permanentemente insatisfeitos, e quanto mais temos, mais desejamos. Neste aspecto temos muito a aprender com outros povos. Na humildade da sua maneira de ser, e na alegria da sua forma de estar. Eles também, como é óbvio, têm muito a aprender connosco. Na educação ou nas condições sanitárias, por exemplo.
Quando existir um equilíbrio entre estas duas realidades opostas, o mundo estará certamente melhor. A felicidade estará mais à mão do Homem, e a miséria material e espiritual mais longe da Terra. Porque a alegria não está em ter muito, está sim, em querer ter pouco!



Luís Colaço

1 comment:

Anonymous said...

Muito bom post, li tudo até ao fim :)

O problema não é haver tecnologia ou trabalho. Quando o trabalho é aliciante faz-nos manter vivos, o problema é quando nos absorvemos demasiado nele e esquecemos outras pessoas que estão perto...

Ás vezes penso que seria bem melhor viver numa ilha tropical sem computadores e a comer fruta (daí o nome do meu blog também)...mas depois penso que passado umas semanas ia logo ficar com saudades de manipular estruturas de dados e corrigir bugs em código C/C++/Java :P

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